Uma contabilidade preparada para o futuro

Nesses tempos modernos, “fazer” contabilidade tem se tornado cada vez mais um trabalho tecnológico, mais até do que profissional. O contador comum do amanhã poderá vir a ser um mero compilador de lançamentos, um intermediário entre o profissional que elabora softwares e os usuários da informação contábil; em alguns casos, sem sequer entendê-la muito bem.

É verdade! Corremos o risco de, em um futuro próximo, termos contadores assumindo a paternidade de um produto que já vem pronto, perfeito e acabado, fruto de uma leve pressão na tecla “print” de algum programa de computador, mas sem que necessariamente esse “pai” saiba interpretar os resultados dessa obra.
Apesar de, nos cursos de graduação de Administração de Empresas e Economia, a Ciência Contábil ser uma disciplina obrigatória e essencial, essa realidade não é a mesma nos demais cursos universitários cujos formandos poderão ser, no futuro, profissionais empreendedores, sem o mínimo de conhecimento dessa “arte” que é a contabilidade. Serão engenheiros, advogados, médicos e uma enormidade de outros profissionais, todos interessados em entender o “fruto” da contabilidade para a condução dos seus empreendimentos, mas carentes de um suporte profissional que não se atenha a simplesmente “fazer” a contabilidade, mas sim saber interpretá-la e transmitir esse conhecimento.

Exagerada essa minha afirmação? Talvez! Mas, no mínimo, devemos pensar muito bem a respeito do assunto. Não que eu tenha uma visão apocalíptica para o futuro do contador, longe disso; no entanto, é preciso enfatizar a enorme diferença entre produzir informações contábeis e saber compilá-las, entendê-las e bem utilizá-las no auxílio da administração de um empreendimento. Para o leigo em contabilidade, penso que a coisa funciona mais ou menos assim: quem produz a informação é o contador, mas quem a entende é o financeiro, o economista ou alguém que trabalha na parte administrativa da empresa.

O rigor contábil, a exatidão do empate entre os totais das aplicações e a origem dos recursos, a singeleza do respeito à álgebra produzida pela equação do balanço, gera nos usuários da informação contábil, principalmente em nós contadores, uma sensação, eu diria, de fascínio. Mas isto é apenas plantio de informações, nada que um bom software não consiga produzir, nada que um bom plano de contas não consiga elucidar, nada que um bom manual de explicações sobre função e funcionamento das contas não consiga resolver. Em resumo, a produção de informações pode ser efetuada por qualquer um que tenha apenas conhecimentos básicos de contabilidade, que tenha a mínima formação contábil, sem necessariamente ser um contador.

Essa é uma ótica que faz com que a imagem do contador seja apenas a de um “preenchedor de formulários”, de um “fazedor de guias” ou a de um “guardião de livros” exigidos pelas autoridades governamentais.
Assim, imaginem então se, por esse descuido ou mesmo acomodação dos contabilistas de plantão, os eventos contábeis passarem a ser reconhecidos sem o mínimo de entendimento necessário, baseados em documentação inidônea, desconsiderando os postulados contábeis ou sem nem mesmo estarem suportados por documentação característica do respectivo registro. Quem “pagará o pato” pelas consequentes análises equivocadas que as demonstrações então gerarão? O produtor do número: o contador, claro! E é por esse risco iminente que essa visão de ser ele apenas um “fazedor” de números precisa ser combatida.

Entendo que – sem nenhum corporativismo – não há melhor profissional do que o contador para a gestão financeira de uma empresa, para a controladoria, tesouraria, custos, orçamento e planejamento. Sabem por quê? Porque não se toma uma decisão, em qualquer empresa, sem se ter à sua frente um relatório produzido e embasado em dados contábeis.
Pois é! Não fomos formados apenas para produzir números, mas fundamentalmente para entendê-los, criticá-los e divulgá-los. Façamos a nossa parte, meus colegas contadores! E preocupem-se em exigir isto dos seus contadores, senhores empresários!

Milton Braz Bonatti

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